Uma banalização dos divórcios não é boa para ninguém. Habitualmente não se pensa no drama do divórcio,
no stresse que um divórcio dá, aos próprios e aos filhos.
E sabendo isso qual é o papel da sociedade? Ajudar apenas a
que se divorciem o mais depressa possível? Ou ajudar a enfrentar a crise
que pode ter mais do que uma saída?
Margarida Neto
Casal, ciclo vital da família, crise conjugal e acompanhamento
De entre as referências antropológicas das sociedades humanas mais antigas e das mais importantes destaca-se a família, assente na relação homem-mulher, de quem depende, em todos os tempos e lugares, a Sociedade e o Estado. No artigo 16, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), consagra-a mesmo como «o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado».
Com um ciclo vital relativamente previsível, cujas relações de vínculos familiares (conjugalidade, maternidade, paternidade e fraternidade) o caracterizam, inserida numa complexa rede de sistemas, facilmente se torna frágil e atreita a ruturas.
Por isso, as crises e os conflitos fazem parte da realidade da família, sobretudo quando se fala de rutura conjugal, abandono, separação ou divórcio, que geram feridas e, não raras vezes, problemas de diversa ordem, quer nos cônjuges, quer nas crianças, em qualquer fase do seu desenvolvimento.
Uma família saudável que se readapta às crises é o melhor local para uma pessoa, e para uma criança o seu “porto seguro”.
Apesar do número elevado de divórcios de que muitos países têm sido testemunhas, o divórcio não tem de ser uma inevitabilidade, pois há alternativas à separação e à rutura conjugal. Neste sentido, há intervenções que procuram ajudar os casais em crise, como a terapia conjugal, a mediação familiar, e a orientação e mediação familiar para a unidade conjugal, assim como programas de educação relacional, embora sejam mais raros os que se destinam a casais em crise e/ou que necessitem de reconstruir a sua relação. O programa Retrouvaille vem suprir essa lacuna em Portugal.
Relações feridas fruto do afastamento, separação, abandono e divórcio
O afastamento, a separação, o abandono e o divórcio têm impacto negativo e tendem a causar sofrimento físico, psicológico e espiritual, tanto nos membros do casal, como nos filhos e até em familiares e comunidade alargada. De facto, a relação conjugal cria uma identidade difícil de anular no casal e em todos os que o rodeiam.
O divórcio é uma das causas da instabilidade familiar, estando-lhe associados níveis inferiores de saúde física e mental (em comparação com os adultos não divorciados), maior sofrimento psicológico e consumo de substâncias e depressão, bem como alterações financeiras, com particulares dificuldades económicas.
As crianças cujos pais se divorciam tendem a ser afetadas no seu desenvolvimento, a curto e a longo prazo, em diferentes dimensões (cognitiva, emocional e/ou comportamental), e no ajustamento social; quando adolescentes, com afetação do desenvolvimento académico, funcionamento psicológico empobrecido e maiores níveis de depressão e ansiedade. É difícil negar o impacto negativo das separações e do divórcio em todos os intervenientes.
As ferramentas de comunicação Retrouvaille num processo de relação conjugal ferida
Muitos casais chegam à crise sem perceberem bem como foi isso possível. Vai-se arrastando o mal-estar, cada um se vai enredando no seu mundo próprio como se fosse um solteiro, dizem-se palavras que não se queriam, cresce a mágoa, às vezes o ressentimento, a intimidade vai perdendo lugar. E vão-se gerando feridas emocionais que parecem intransponíveis.
Por vezes, surgem infidelidades, dependências e vícios de comportamento que pretendem anestesiar a dor e o sofrimento. Vai-se criando a distância, o afastamento e, quando menos se espera, a crise conjugal é uma realidade. Que fazer? Como abordar o cônjuge – agora tão distante?! Com quem falar, sem que se seja alvo de julgamento? Como conseguirmos uma aproximação, se quase somos uns estranhos na mesma casa? Como comunicar o que me vai dentro? Como escutar sem perder a paciência? E os filhos, que se vão dando conta de que o seu mundo desmorona…? As questões e as dúvidas são muitas.
Um dos primeiros aspetos a sofrer a degradação numa relação conjugal é a comunicação. O Retrouvaille é um programa que ajuda cada casal, de forma orientada, delicada e respeitosa, a dialogar, a aproximar-se e a reconstruir uma relação que parecia destruída, irrecuperável, onde o amor parecia desgastado e ausente. Isto não impede que o casal não recorra a outros tipos de ajuda especializada, de acordo com a sua própria realidade.
Através de casais que já passaram eles mesmos por relações em crise que superaram, o Retrouvaille apresenta e ensina ferramentas de comunicação que ajudam os casais a centrar-se em si. Este é um processo sensível, mas possível, de reconstrução de uma relação. O casal não tem de partilhar nada com outras pessoas. E também não está sozinho numa sociedade que despreza o valor do amor conjugal, que facilmente promove e aconselha a separação, o divórcio. No Retrouvaille, ajudamo-nos uns aos outros, sabemos e testemunhamos que é possível restaurar relações feridas.
Trabalhar a comunicação na relação conjugal ajuda a que outras dimensões da relação se vão trabalhando. O perdão, que não é imediato, exige delicadeza, respeito, profundidade, proximidade sincera. Ele é essencial para o bem-estar pessoal e conjugal, um processo que pode ser difícil, mas possível (de conceder e de receber), com tempo, gradual, uma decisão pessoal, fonte de libertação, paz, amor e vida, pois ele é transformador da relação.
O Retrouvaille ajuda os casais a trabalharem a raiz das dificuldades de relação no casamento, a perceber o outro e as suas emoções, a restabelecer o diálogo e a reconstruir a relação de casal. O Retrouvaille pode ajudar os casais a, gradualmente, irem conseguindo um amor mais profundo e duradouro, que vai crescendo com o tempo.
Alternativa ao afastamento, separação, abandono e divórcio
O elevado número de divórcios pode sugerir, como é comum ouvir-se, que “casar não vale a pena” ou que é “perigoso”, pois uma relação malsucedida pode gerar muitas feridas, sobretudo psicológicas, com grande impacto na saúde mental. Contudo, é preciso dizê-lo, nem todos os casamentos acabam em divórcio e há alternativas ao afastamento, separação, abandono e divórcio, sendo possível ultrapassar as crises conjugais. Aliás, se ajudados e apoiados, os casais tendem a superar a sua crise.
No Retrouvaille, acreditamos que todo o casamento – uma união entre um homem e uma mulher – merece a oportunidade de permanecer, ser curado e prosperar como uma aliança de vida e de amor.
Alguns advogados, juristas, psicólogos, médicos, conselheiros matrimoniais, terapeutas familiares e de casal, religiosos, sacerdotes, acompanhantes espirituais e escutadores encaminham casais para o Retrouvaille durante o seu processo de acompanhamento. Estes profissionais e agentes pastorais sabem que as ferramentas de comunicação conjugal ensinadas no programa são, muitas vezes, exatamente aquilo de que os casais necessitam. Quanto mais cedo formos capazes de propor o Retrouvaille aos casais, mais cedo os ajudaremos a encontrar ferramentas que, não só os ajudem a reconstruir a sua relação, como podemos evitar um sofrimento prolongado.
O Retrouvaille é um programa de construção de relações, não de resolução de problemas. Os casais são convidados a centrarem-se na sua relação e a trabalharem sobre ela. No final do programa, estarão mais bem equipados para resolver os seus problemas específicos e recorrerem a outras ajudas, se disso necessitarem.